O protagonismo espírita na preservação do planeta

 Jéssica Monteiro de Godoy

(Esta palestra, de minha autoria, foi proferida em 07/10/2024 no 

Centro Espírita Verdade e Caridade em Bauru-SP)

Obs.: As palestras anteriores serão postadas na sequência. 
O tema da crise ambiental à luz do espiritismo pela urgência é prioritário.

Em resumo, esta palestra trata da responsabilidade espiritual e ecológica dos espíritas na preservação do planeta, conectando a doutrina espírita com um tema contemporâneo e urgente, a crise ambiental, sem perder de vista os fundamentos da reforma íntima e da caridade.

 

Este parece um tema que não condiz com o principal foco da Doutrina Espírita: conscientizar para o orgulho e o egoísmo que está dentro de cada um de nós. Falar de orgulho e egoísmo por si mesmo é muito abstrato. Precisamos dar exemplos práticos para entendermos o que são e o que implicam na nossa e na vida dos outros. E precisamos não ficar só no mais do mesmo. Lembremos que toda ação está permeada pelo que somos, pelo que acreditamos, como pensamos.

O tema ambiental, neste sentido, tem tudo a ver e vamos ver o quão urgente é. Pouco compreendido pelas sociedades, mas fundamental para nossa existência. Ou só interessam as relações interpessoais? Ou somos o centro do mundo e nos sobrepomos a tudo ao redor? Não. Somos parte do mundo, assim que tudo o que diz respeito ao mundo, diz respeito a nós e está diretamente ligado ao orgulho e egoísmo que ainda existem dentro de cada um de nós e que precisam ser trabalhados, em nosso interior, para extirpá-los.

O protagonismo espírita na preservação do planeta é só um exemplo de como podemos transformar nosso orgulho e egoísmo em caridade e humildade. O espírita deve procurar ver com amor em ação, ou seja, caridade, tudo o que diz respeito a si e ao próximo. Somos constituídos de natureza e a natureza também é o nosso próximo.

Vamos aqui trazer um repertório teórico tradicional da doutrina para falar de questões contemporâneas, mostrando como são importantes e interconectadas, ainda, demonstrando sua aplicabilidade e relevância em questões urgentes da nossa época.

Estamos vivendo novos tempos, o que algumas denominações cristãs chamam de Apocalipse, outras de Nova Era e que o Espiritismo denomina Transição Planetária.

No livro Vidas Vazias, de psicografia de Divaldo Pereira Franco, Joanna de Angelis é enfática ao dizer que renascemos na Terra para contribuir em favor da Era Nova, aliás, todos que se encontram no planeta estão em preparativos para a grande transição que está sendo operada há algum tempo.

Trata-se de um momento determinante na nossa evolução. Estamos na transição de Mundo de Provas e Expiações para Mundo de Regeneração. Que não vai acontecer por si mesmo, depende de cada um de nós. Estamos em regeneração. Agora é a época do retorno do Cristo, não em carne como há dois mil anos, mas no coração dos homens. Estamos na época de restaurar o Cristianismo dos tempos dos primeiros cristãos, o Evangelho em sua essência. Sem demagogia, sem hipocrisia, sem falsas ou distorcidas interpretações. Temos a nosso favor o Espiritismo que é o Cristianismo Redivivo e o Consolador Prometido pelo Cristo. Consola porque nos preenche de conhecimento, abraçando a ciência e nos revelando as verdades espirituais pela fé raciocinada; também, mostra-nos que é sempre tempo para recomeçar, ou seja, mudar nossa forma de pensar e agir. Mas só permanecerão aqui aqueles espíritos que vibrarem em frequência compatível com a Terra regenerada. Ainda assim, ao descrever o mundo de regeneração, alerta-nos Santo Agostinho no capítulo 3 de O Evangelho Segundo o Espiritismo:

[...] nesses mundos, ainda falível é o homem e o espírito do mal não há perdido completamente o seu império. Não avançar é recuar, e, se o homem não se houver firmado bastante na senda do bem, pode recair nos mundos de expiação, onde, então, novas e mais terríveis provas o aguardam.

 

Como é importante nesses tempos nos ater ao que é essencial: a tudo sobrepor o entendimento do espírito. Nisso, precisamos continuar a colocar em prática a reforma íntima que só é possível por meio do conhecimento de nós mesmos, nossos pontos fortes e nossos pontos a melhorar, e o conhecimento do mundo que se dão pelo conhecimento espiritual e científico nas suas mais diversas manifestações: psicologia, jornalismo, educação, ambientalismo, sociologia e assim por diante. No capítulo I “Caracteres da revelação espírita” de A Gênese, Kardec esclarece essa união entre ciência e religião que também aparece em O Evangelho Segundo o Espiritismo:

Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.

 

Para a palestra de hoje vou me basear principalmente no livro Espiritismo e Ecologia do Jornalista Ambiental e Espírita, André Trigueiro, editado pela Federação Espírita Brasileira, FEB.

Estamos vendo em nosso país há anos queimadas avassaladoras na Amazônia, no Pantanal e mesmo no interior de São Paulo onde vivemos. Passamos setembro em meio à fumaça que chegou até nossos vizinhos de pátria. Na nossa cidade particularmente estamos sofrendo com muita falta de água. Trigueiro continua elencando os problemas ambientais, entre estes:

“(...) Mudanças climáticas, escassez de recursos hídricos, produção monumental de lixo, destruição sistemática e veloz da biodiversidade, crescimento caótico e desordenado das cidades em que vive a maior parte da população mundial, (...) uso irresponsável de agrotóxico” (p.18-141). 

 

Experimentamos uma crise sem precedentes na História. E temos responsabilidade nisso. Por prática abusiva, frutos da ignorância e do egoísmo. Por omissão. “(...) Pelo nosso estilo de vida, hábitos, comportamentos e padrões de consumo. É o nosso livre-arbítrio em ação. (...) Nossa própria imperícia, imprudência ou negligência”, “[...] resolvê-la implica em uma mudança profunda de cultura”, sinaliza o jornalista (p. 18; 47; 136).

Na questão 932 de O livro dos espíritos, Kardec pergunta aos espíritos: “Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons?” Resposta dos espíritos: “Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão”.

O Espiritismo nos revela que todos nós passamos pelos diferentes reinos da Natureza em uma progressão contínua. Diz Emmanuel no livro que leva seu nome, psicografia de Francisco Cândido Xavier: “De milênios remotos, viemos todos nós, em pesados avatares” (p. 112). A doutrina espírita nos releva que evoluímos transitando em diferentes reinos biológicos. André Trigueiro considera que isso determina uma nova ética em relação a todas as criaturas existentes. Todo ser vivo poderia ser considerado nosso “irmão em evolução”. Francisco de Assis, santo na Igreja Católica, nos conta o jornalista, conversava com borboletas e pássaros há 800 anos. A ciência confirma esse parentesco: “temos 30 mil genes e, mesmo no topo da cadeia evolutiva, nossa diferença para os ratos é de apenas 300 genes. Em relação aos vermes, são apenas 10 mil genes a mais”, apresenta Trigueiro nesse mesmo livro.

Como espíritas precisamos defender a mesma causa dos ecologistas: a proteção da biodiversidade. Como espíritas precisamos entender que os diferentes estágios são escadas e que precisamos garantir que outros seres em evolução tenham seus direitos preservados de existir e seguir em frente, já que a espécie humana é a única que pode interferir para o bem e para o mal em grandes proporções na natureza porque tem livre-arbítrio. O jornalista André Trigueiro avalia que “(...) Enquanto o abate de animais para alimentação humana ainda for visto como uma necessidade, que se considere a forma mais ética de realizar esse procedimento, sem crueldade, eliminando ao máximo os riscos de dor e sofrimento” (p. 43).

Alguém aqui já parou para pensar que o planeta está dentro de nós? Os mesmos elementos que constituem o planeta, constituem nossos corpos. A  palavra “homem” tem origem no latim “húmus”. Nas nossas veias circulam minérios que fazem parte das propriedades do solo: ferro, zinco, cálcio, selênio, fósforo, manganês, potássio, magnésio são alguns deles. Se faltam, gera desequilíbrio no organismo e consequentemente aparecem as doenças. Somos gestados na água; a proporção de água no Planeta Terra e em nosso corpo é a de 70%; precisamos ingerir pelo menos 2,5 litros de água por dia para assegurar o bom funcionamento do corpo. Precisamos de água no ar que respiramos.

O fogo tem sua importância na natureza. Sem o efeito estufa, ou seja, a capacidade da atmosfera de reter calor pelo sol, não teríamos vida na Terra como a conhecemos. Este mantém a temperatura na Terra em uma média de 15ºC. Se este não existisse, a temperatura seria -23ºC. O aquecimento global, fenômeno que os cientistas cunharam quanto às mudanças provocadas pela queima progressiva de petróleo, carvão e gás, ou seja, ocasionadas pelo livre-arbítrio da nossa espécie, é o agravamento do efeito estufa.

Precisamos igualmente do ar. Até conseguimos sobreviver alguns dias sem comida e sem água, mas não conseguimos por mais de alguns minutos sem oxigênio.

Se não temos uma casa, o planeta, como um lar, um ambiente acolhedor, como as condições de vida serão adequadas? A humanidade e o planeta são um. Somos “(...) parte do Todo, e não a razão pela qual o universo existe” (p. 48).  Precisamos despertar para essa consciência.

A evolução não dá saltos, é verdade. O jornalista sinaliza, ainda assim, diante da falta de consciência em preservar nossa casa planetária, que espíritas e ecologistas devem recomendar a aceleração do passo na direção da mudança. É pra ontem! Pelo planeta, por todos nós.

André Trigueiro explicita que “(...) os ecologistas denunciam o risco de colapso na capacidade de suporte do planeta em atender às atuais demandas de matéria-prima e energia da humanidade” (p. 56). Como eles, relatórios científicos (Pnuma e Pnud), organizações governamentais como a WWF, prêmios nobeis “(...) consideram esse risco iminente se não corrigirmos os rumos desde já. Alguns estudos indicam que, se nada for feito, se permanecermos sem as mudanças estruturais necessárias, essa ruptura poderia acontecer aproximadamente em 2050” (p. 57).

É verdade que a providência divina nunca nos abandona. Mas também é verdade que nossas escolhas são soberanas e determinantes do destino que teremos. Ou seja, nossas escolhas carregam responsabilidades. Estamos falando de escolhas individuais e coletivas. O que temos decidido sobre meio ambiente? Isso interfere diretamente na nossa sobrevivência. Lembremos: o mesmo Deus que ampara e protege delega funções e atribuições. Deus ajuda quem se ajuda. O Planeta foi confiado também à nossa tutela. André Trigueiro nos pergunta: “(...) estamos devidamente mobilizados para enfrentar esses problemas?” (p. 59). Não há mágica. Sermos regenerados depende de nós. Regenerar o mundo também depende de cada um de nós. A nossa transformação e esse mundo não virão se mantivermos os braços cruzados. Queremos encontrar nesta e nas próximas reencarnações estoque de água doce, terra fértil, ar puro, clima estável? Depende de nós aqui e agora! Assim como nós, o planeta precisa de pausa, precisa de descanso.

André Trigueiro resgata o livro Após a tempestade, de psicografia de Divaldo Pereira Franco pelo espírito de Joanna de Ângelis. No capítulo “Poluição e Psicosfera” a autora espiritual traça um paralelo entre os dois tipos de poluição, a poluição material e a poluição mental gerada por pensamentos negativos produzidos por cada um de nós. A atual psicoesfera do mundo é sofrível. Precisamos preservar o planeta dessas energias. A oração e prática do bem desanuvia esse ambiente contaminado.

Não é possível viver sem consumir. O problema está no consumismo, ou seja, o consumo desenfreado, inconsciente, abusivo, supérfluo, que gera desperdício de recursos e, portanto, escassez. André Trigueiro resgata dados de uma coluna do jornalista Washington Novaes no jornal O Estado de São Paulo de 2004, ou seja, provavelmente estes dados estão maiores já que se passaram vinte anos: “(...) gastam-se 18 bilhões de dólares por ano no mundo com perfumes e cosméticos – que bastariam para eliminar a fome de 800 milhões de pessoas. É o escancaramento do orgulho e egoísmo que o Espiritismo tanto alerta como as chagas da Humanidade.

Continua dizendo André Trigueiro que:

 “(...) Não é mais possível, por exemplo, defender a exploração sustentável da floresta Amazônica sem privilegiar o consumo de carne bovina de origem legal, uma vez que dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que 80% da destruição do verde na região têm origem na pecuária extensiva. Sem informação, o consumidor pode estar comendo carne com cheiro de floresta queimada” (p. 81).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

Revela Trigueiro que dados mais atuais da ONG, WWF, “(...) mostram que já estamos utilizando cerca de 50% a mais do que o que temos disponível em recursos naturais, ou seja, que precisamos de um planeta e meio para sustentar nosso estilo de vida atual” (p.83). O ser humano tem retirado da natureza recursos em uma velocidade acima da que a natureza consegue repor.

Na questão 705 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta aos espíritos:

Por que nem sempre a Terra produz bastante para fornecer ao homem o necessário?

Resposta: É que, ingrato, o homem a despreza! Ela, no entanto, é excelente mãe. Muitas vezes também acusa a Natureza do que só é resultado de sua imperícia ou da sua imprevidência. A Terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ele emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário. [...]

 

Na questão 799, Kardec indaga:

De que maneira pode o Espiritismo contribuir para o progresso?

Resposta: Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz que os homens compreendam seus verdadeiros interesses. Deixando a vida futura de estar velada pela dúvida, o homem perceberá melhor que, por meio do presente, lhe é dado preparar seu futuro. Abolindo os prejuízos de seitas, castas e cores, ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos.

 

Trigueiro nos lembra: somos o maior país espírita do Planeta. Temos a maior reserva de água doce do mundo, superficial, a bacia do rio Amazonas, e subterrânea, o aquífero Guarani. Temos a maior diversidade de espécies da Terra e a maior disponibilidade de solo fértil. Temos uma missão como espíritas no Brasil. Estamos fazendo o necessário para evitar o pior?

O Planeta Terra, governado por Jesus e, cuja criação, foi acompanhada por Ele desde o início é perfeito. A natureza é perfeita. Porque Deus é perfeito. Temos a quantidade necessária de oxigênio na atmosfera favorecendo a vida e que se fosse maior causaria incêndios, impossibilitando essa mesma vida. A salinidade dos oceanos é em torno de 6%, ideal para a vida marinha. O Planeta tem uma vida própria.

A partir do capítulo 8 de A Gênese, Kardec nos faz compreender que “por alma da Terra, pode entender-se, mais racionalmente, a coletividade dos Espíritos incumbidos da elaboração e da direção de seus elementos constitutivos [...]” (p. 108). Pouco entendimento temos do que chamamos elementais, mas no livro Técnica da mediunidade, Carlos Torres Pastorino oferta algumas informações a respeito do assunto. Além dele também o livro “Todos os animais merecem o céu” de Marcel Benedeti:

Espíritos elementais, ou dos elementos da Natureza, divididos desde a Antiguidade, de acordo com os elementos: gnomos da terra (os hindus os dizem chefiados por Kchiti); ondinas da água (chefiados por Varuna); silfos do ar (chefiados por Pavana ou Vâyu; e salamandras do fogo (chefiados por Agni). Outros ainda são citados: fadas, duendes, sátiros, faunos, silvanos, elfos, anões, etc. Excetuando-se seus chefes e guias, não encarnam como homens, preparando-se para isso por seus contatos com o gênero humano. Embora possuam forças psíquicas, estas não se desenvolveram ainda como “Espíritos” (individualidades) e por isso só possuem (como os animais) o raciocínio concreto, não utilizando ainda a palavra como meio de expressão de seus pensamentos. Manifestam-se muito nas sessões de umbanda e quimbanda, e podem obedecer a ordens de criaturas treinadas (boas ou más), para operar o bem ou o mal, que ainda não distinguem. A responsabilidade, pois, recai toda sobre os que emitem as ordens (p.109).

 

            Aprendemos com a última pandemia da qual fomos protagonistas? Trigueiro nos informa que (p. 122)

“[...] no início de 2022, vinte especialistas de diversos países publicaram na revista Science Advances um plano de ação para guiar tomadores de decisão na prevenção de novas pandemias. São basicamente três medidas: 1) melhoria na vigilância de transmissão de patógenos de animais para humanos; 2) manejo da vida selvagem e combate ao tráfico de animais; 3) redução do desmatamento. De acordo com os pesquisadores, o custo anual dessas medidas (20 bilhões de dólares), seria 20 vezes mais barato que os gastos de enfrentamento da pandemia. Como se vê, para atenuar os riscos do aparecimento de novas pandemias é preciso reduzir os desmatamentos, equipar laboratórios para o rastreamento de vírus que possam ameaçar a Humanidade, instituir protocolos sanitários rígidos em todos os processos que envolvam contato com animais silvestres e/ou manipulação de suas carnes, vísceras, peles etc.

 

Chico Xavier foi um exemplo, em várias circunstâncias, de amor, respeito e compreensão espiritual sobre a importância da natureza. Em Pedro Leopoldo, onde chegou a morar, sempre que precisava se acalmar, procurava pelo açude. Reutilizava os papeis das psicografias. Depois de passar à máquina de escrever, apagava com borracha para escrever novamente nas folhas agora em branco. Já em Uberaba, as reuniões doutrinárias eram à sombra de um abacateiro. Lá, ele cuidava com especial carinho de sua roseira, porque dizia que a espiritualidade a utilizava como bálsamo para os trabalhos de cura da casa espírita. Ele orava e conversava com as flores. Lorde, Dom Negrito e Brinquinho foram alguns dos cachorros de Chico. Verdadeiros companheiros, entretinham o médium nos momentos difíceis de vida e o acompanhavam até mesmo nas reuniões mediúnicas do centro espírita. Certa vez, ao se esquivar de elogios, Chico disse que não se passava de um verme. Foi repreendido no mesmo instante por Emmanuel que lhe disse que mesmo os vermes têm uma função fundamental na natureza. Daí em diante, Chico preferiu se chamar de subverme.

Em 5 bilhões de anos de existência, a Terra passou por, pelo menos, cinco grandes extinções em massa causada por cataclismos naturais. Estamos passando pela sexta, desta vez provocada pelo ser humano. O jornalista informa: “[...] em apenas 40 anos, nós levamos à extinção mais da metade dos animais selvagens desse planeta. A cada ano, destruímos uma área verde equivalente a 5 milhões de campos de futebol”. Obviamente gera muitos impactos na nossa qualidade de vida também, na nossa saúde, longevidade e bem-estar. Como o livre-arbítrio é soberano, o mundo de regeneração será o que fizermos dele hoje. Nós espíritas sabemos que toda causa tem seu efeito.

Precisamos cobrar medidas de proteção ambiental em nível federal, estadual e municipal. Considerando que na esfera federal órgãos como Ibama e o Instituto Chico Mendes de Meio Ambiente (ICMbio) tenham estrutura, autonomia e recursos financeiros para fiscalização de desmatamento, queimadas, tráfico de animais, contaminação de solo, água e ar, entre outras irregularidades e crimes ambientais praticados por pessoas físicas e jurídicas.

Os estados precisam auxiliar o governo federal na fiscalização e em leis estaduais que possam complementar a legislação federal. Os munícipios com atuação mais próxima e pontual também devem fiscalizar, criar e cumprir leis que complementem as legislações de esferas superiores, estadual e federal. Estados e municípios podem contribuir muito com áreas de preservação ambiental, incentivo à agropecuária sustentável e ao plantio de árvores com espécies adequadas para áreas urbanas e rurais. Além disso, também podem contribuir com ações práticas como tratamento de esgoto, destinação correta do lixo, recuperação de matas ciliares, ou seja, ao redor de rios, contenção de erosões, entre outros. Informação é poder: poder de decisão mais consciente!

Como espíritas precisamos denunciar irregularidades e crimes a órgãos competentes, como as Secretarias Estaduais e Municipais de Meio Ambiente, Ibama e ICMbio, Polícia Ambiental e Ministério Público na área de Meio Ambiente. Corpo de Bombeiros e Defesa Civil também são órgãos importantes na mitigação e combate a incêndios, queimadas, resgate de pessoas e animais em situação de risco, como enchentes. Por isso, são necessárias ações públicas para fortalecer esses órgãos com contratação de pessoal em número adequado e estrutura, como equipamentos e treinamentos.

Sem falar que para a climatização urbana, ou seja, alívio da temperatura precisamos de gestores que tenham projetos em arborização das cidades. Também é tarefa do município preparar brigadistas voluntários, só o Corpo de Bombeiros não dá conta. Precisamos de escoamento de água da chuva para os rios com mais bueiros, isso evita enchentes.

Além disso, a cada quatro anos temos a oportunidade de votar em candidatos que tenham propostas plausíveis para uma sociedade sustentável e acompanhar pelo jornalismo de qualidade o papel exercido por esses governantes. Separemos o lixo reciclável, economizemos água, plantemos árvores. Isso também é sobre nossa cidadania ativa e participativa. Precisamos fazer nossa parte!

André Trigueiro, esse jornalista ambiental e espírita, cujo trabalho de divulgação da doutrina eu trouxe em maior medida para embasar esta palestra de hoje, tem um canal no YouTube chamado Papo das Nove. No dia 29 de setembro deste ano, ele trouxe o tema propositivo: “Crise climática – ainda há tempo para aprender pelo amor?” Vale muito à pena assistir. Faço minhas as palavras de Trigueiro que finaliza aquele vídeo da seguinte forma: “[É necessário] pensar globalmente, agir localmente. Não estamos à toa neste lugar e nesta época. Precisamos agir aqui e agora”.

Não é o planeta que precisa ser salvo, somos nós. O planeta tem sua própria forma de se reconstruir. Façamos o que estiver ao nosso alcance para contribuir para uma morada melhor. Evolução é mérito pessoal, individual e intransferível. Nossa conivência ou omissão determinam impactos coletivos. Não basta não fazer o mal, é preciso fazer o bem, dizem os espíritos. Com a consciência de que: “é sobre se sentir parte da natureza e não dono dela”.

 

 

 Mensagem do capítulo 17 – levada impressa:

 


A conta da vida

 

Quando Levindo completou vinte e um anos, a mãezinha recebeu-lhe os amigos, festejou a data e solenizou o acontecimento com grande alegria.

No íntimo, no entanto, a bondosa senhora estava triste, preocupada.

O filho, até à maioridade, não tolerava qualquer disciplina. Vivia ociosamente, desperdiçando o tempo e negando-se ao trabalho. Aprendera as primeiras letras, a preço de muita dedicação materna, e lutava contra todos os planos de ação digna.

Recusava bons conselhos e inclinava-se, francamente, para o desfiladeiro do vício.

Nessa noite, todavia, a abnegada Mãe orou, mais fervorosa, suplicando a Jesus o encaminhasse à elevação moral. Confiou-o ao Céu, com lágrimas, convencida de que o Mestre Divino lhe ampararia a vida Jovem.

As orações da devotada criatura foram ouvidas no Alto, porque Levindo, logo depois de arrebatado pelas asas do sono, sonhou que era procurado por um mensageiro espiritual, a exibir largo documento na mão.

Intrigado, o rapaz perguntou-lhe a que devia a surpresa de semelhante visita.

O emissário fitou nele os grandes olhos e respondeu:

— Meu amigo, venho trazer-te a conta dos seres sacrificados, até agora, em teu proveito.

Enquanto o moço arregalava os olhos de assombro, o mensageiro prosseguia:

— Até hoje, para sustentar-te a existência, morreram, aproximadamente, 2.000 aves, 10 bovinos, 50 suínos, 20 carneiros e 3.000 peixes diversos. Nada menos de 60.000 vidas do reino vegetal foram consumidas pela tua, relacionando-se as do arroz, do milho, do feijão, do trigo, das várias raízes e legumes. Em média calculada, bebeste 3.000 litros de leite, gastaste 7.000 ovos e comeste 10.000 frutas. Tens explorado fartamente as famílias de seres do ar e das águas, de galinheiros e estábulos, pocilgas e redis. O preço dos teus dias nas hortas e pomares vale por uma devastação. Além disto, não relacionamos aqui os sacrifícios maternos, os recursos e doações de teu pai, os obséquios dos amigos e as atenções dos vários benfeitores que te rodeiam.

Em troca, que fizeste de útil? Não restituíste ainda à Natureza a mínima parcela de teu débito imenso. Acreditas, porventura, que o centro do mundo repousa em tuas necessidades individuais e que viverás sem conta nos domínios da Criação? Produze algo de bom, marcando a tua passagem pela Terra. Lembra-te de que a própria erva se encontra em serviço divino. Não permitas que a ociosidade te paralise o coração e desfigure o espírito!...

O moço, espantado, passou a ver o desfile dos animais que havia devorado e, sob forte espanto, acordou...

Amanhecera.

O Sol de ouro como que cantava em toda parte um hino glorioso ao trabalho pacífico.

Levindo escapou da cama, correu até a genitora e exclamou:

— Mãezinha, arranje-me serviço! Arranje-me serviço!...

—Oh! meu filho — disse a senhora num transporte de júbilo —, que alegria! Como estou contente!... Que aconteceu?

E o rapaz, preocupado, informou:

— Nesta noite passada, eu vi a conta da vida.

Daí em diante, converteu-se Levindo num homem honrado e útil.

(Do livro “Alvorada Cristã”, pelo Espírito Neio Lucio,

psicografia de Chico Xavier. FEB. 10ª ed.1991. Cap. 17. p. 77-79.)

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