A sede da alma e a sede do corpo
Jéssica Monteiro de Godoy
(Esta palestra, de minha autoria, foi proferida em 13/03/2023 no
E
disse Jesus: “Mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede” (João
4:14). A reflexão de hoje é sobre a água e a sede, mas não somente a do corpo,
mas também a do espírito.
Jesus,
em várias passagens fala da sede e da água da vida. São figuras de linguagem
para o sofrimento, a dor, o vazio existencial junto a um desejo de reparação,
reestruturação, saciamento. A água da vida é a vida em suas bem-aventuranças,
que podemos “beber”, mais uma vez simbólico, no Evangelho, não somente como
contemplação, mas principalmente como ação.
Para
esta palestra eu me inspirei no livro do teólogo católico José Tolentino
Mendonça, Elogio da Sede. Cheguei ao livro por indicação de Pedro Bial, fora um
presente que ele deu à também jornalista Glória Maria quando esta descobriu
novamente o câncer. Apesar de um livro católico, é interessante observar as
interpretações cristãs e, as que dialogam com o espiritismo, foram uma grata
surpresa.
Em uma
passagem bíblica no poço, Jesus pede a uma Samaritana: “Dá-me de beber”.
Explica-nos o teólogo que a sede de Jesus “não se materializa na água, porque
não é de água a sua sede. É uma sede maior. É a sede de tocar as nossas sedes,
de contatar com os nossos desertos, com as nossas feridas. É a sede dessa parte
significativa de nós mesmos que fica tão frequentemente adiada, abandonada à
solidão. É a sede dessa porção de nós (porção suspensa, omitida, calada) para a
qual não encontramos interlocutor”. Será que estamos calando, ocultando,
renegando à solidão a nossa sede? Temos procurado Deus por meio de Cristo?
De
acordo com Tolentino, “Deus é a nossa raiz, o nosso tempo, a nossa atenção, a
nossa contemplação, a nossa companhia, a nossa palavra, o nosso segredo, a
nossa escuta, a nossa água e a nossa sede”.
Em
(Apocalipse 22:17) diz Jesus: “O que tem sede aproxime-se; e o que deseja beba
gratuitamente da água da vida”. É, assim, prometida uma abundância e uma
plenitude pelo Salvador.
A
poetisa Emily Dickinson dizia que “a água é-nos ensinada pela sede”. São João
da Cruz afirmava que podemos beber mesmo na obscuridade porque a nossa sede
ilumina a fonte. Pergunta-nos o teólogo: O que é que nossa sede nos ensina? Que
fonte ela ilumina e esclarece? Será que fazemos da nossa sede uma escola de
verdadeiro conhecimento, nosso e de Deus? Ou, pelo contrário, aceitamos viver à
míngua de água, procurando mascarar uma sede que não escutamos?”
Nesse
sentido, “não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que
se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais
narrativas defensivas ou idealizadas; é uma dor antiga que, sem percebermos bem
como encontramos reavivada, tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos
custam encarar, quanto mais aceitar na confiança”.
Neste
mundo em que vivemos, o perigo em reconhecer superficial e materialmente a natureza
da sede é deixar-se levar pelo consumismo. A felicidade real é mascarada pelo
prazer imediato. Logo depois se abre uma frustração, um vazio e uma necessidade
de continuar consumindo superfluamente para saciar essa sede, que não é de
origem, nem fim material, pois é espiritual.
Converter-se
no sentido espírita tem a ver com reforma íntima. É buscar o autoconhecimento
constantemente, uma consciência efetiva das nossas necessidades, identificar os
pontos falhos a serem trabalhados por nós mesmos com a ajuda de Deus por meio
dos espíritos amigos e a cada dia ser um homem melhor, caminhando comprometidos
sempre, nos pequenos gestos e das práticas concretas, em busca do ideal do
homem de bem que nos revela O Livro dos Espíritos.
Em
(Isaías 55:10) diz que “A chuva e a neve descem do céu, e não voltam para lá,
senão depois de empapar a terra, de a fecundar e fazer germinar”. Ou seja, de
uma transformação real. Não podemos para isso, impermeabilizar a terra ou
idealizar de forma a não ver as deformações de nossa terra. Estamos nos
enganado por meio da casca grossa ou de não queremos enxergar o que precisamos
ver?
Diz-nos
José Tolentino? “Nós somos isso, uma mistura de tantos componentes emocionais,
psicológicos e espirituais, e de todos eles precisamos ganhar consciência.
Precisamos nos olhar na nossa inteireza, não teme-la nem negá-la, mas abraça-la
com maturidade, lucidez e confiança, porque é a assim que Deus nos olha. (...)
Deus nos ama por inteiro”.
Há um
texto da escritora e jornalista Clarice Lispector que fala sobre essa sede.
Chama-se “Um ato gratuito”, incluído no livro Todas as crônicas:
“Uma
tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquíssimas, estava eu
escrevendo à máquina – quando alguma coisa em mim aconteceu. Era o profundo
cansaço da luta. E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade que
acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava
exausta de tirar ideias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de
escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava –
precisava com urgência – de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato
que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com
dinheiro, mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custava viver.
Então minha própria sede guiou-me. Eram duras horas da tarde de verão. Interrompi
meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e
disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?”, perguntou ele. “O senhor
não está entendendo”, expliquei-lhe, “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do
bairro”. Não sei por que me olhou um instante com atenção. Eu ia ao Jardim
Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver...
Havia naquela alameda um chafariz de onde a água corria sem parar... Bebi.
Molhei-me toda. Sem me incomodar: esse exagero estava de acordo com a
abundância do Jardim”.
Para
receber da água da vida é necessário reconhecer-se sedentos, enxergar a nossa
vulnerabilidade, deixando de lado a autossuficiência e a autorreferencialidade,
quando somos para nós mesmos nossa referência. Onde entra Deus?
“Abraçar
a sua vulnerabilidade é aceder ao desejo de ser reconhecido e tocado como o
leproso que se abeirou de Jesus (Mateus 8:3), como a sogra de Pedro que jazia
no leito com febre (Mateus 8:15), como a mulher que sofria hemorragias há doze
anos (Mateus 9:20), como os que gritam “Filho de Davi tem piedade de nós”
(Mateus 9:29), como os doentes que suplicavam poder tocar pelo menos na orla do
seu manto (Mateus 14:36), como os discípulos caídos por terra na cena da
transfiguração (Mateus 17:7) e como os cegos que em Jericó comoveram Jesus,
rogando-lhe: “Senhor, que os nossos olhos se abram!” (Mateus 20:34).
O
contrário da sede é a acédia, a sede de nada, a falta de apetite, a
indiferença, a perda do gosto de viver, que adoece. É a apatia, a depressão.
Que deve ser encarada com respeito, entendimento e solidariedade, sem qualquer
tipo de julgamento. Vivemos uma pandemia de depressão e suicídio. Precisamos
cada vez mais falar sobre isso e acolher quem precisa de ajuda. O teólogo diz
que a “a sede ensina-nos a arte de buscar, de aprender, de colaborar, a paixão
de servir. Quando renunciamos à sede é que começamos a morrer. Quando
desistimos de desejar, de achar sabor nos encontros, nas conversas partilhadas,
nas trocas, na saída de nós mesmos, nos projetos, no trabalho, na própria
oração. Quando diminui a nossa curiosidade pelo outro, a nossa abertura ao
inédito, e tudo nos soa a um requentado déjà-vu que advertimos como um peso
inútil, incongruente e absurdo que nos esmaga”.
Jesus
tinha sede da nossa salvação, ou seja, da nossa vida em abundância pelo
Evangelho.
As
lágrimas são também um tipo de sede. Jesus proclama: “Bem-aventurados os que
agora chorais” (Lucas 6:21). As lágrimas narram nosso desejo de vida. As
lágrimas exprimem o interior da nossa alma. Qual o conteúdo das nossas
lágrimas? Deus as conhece.
Referindo-se
à Igreja Católica, mas podendo tomar o ensinamentos para todas as igrejas, o
teólogo alerta que “Nunca é bom para a Igreja quando ela fica falando sozinha
ou quando se isola numa torre de marfim. Ela é mãe, mas também discípula;
mestra, mas também aprendiz da verdade. Corremos o risco de confiar o comando
da vida espiritual a um piloto automático, dar por adquirido o que depende
efetivamente de humilde construção de todos os dias, ritualizar de forma
mecânica aquilo que pede de nós espontaneidade, afeto e um sim criativo, sempre
a ser renovado. A fé não é um pódio: é uma estrada”.
Quando
falamos de sede, falamos também da sede literal, a sede das periferias.
Hipocrisia não se falar dela em um mundo tão desigual. Saiamos de nossas zonas
de conforto, porque é quando praticamos a fé, ao encontro de nossos irmãos. A
água é um direito humano inalienável, mas segundo um relatório recente da
Organização Mundial de Saúde (OMS) três em cada dez pessoas não têm acesso à água
potável em casa. Isso significa em torno de 2 bilhões e 100 milhões de seres
humanos sem água. 844 milhões de pessoas não tem água nem na vizinhança. Mais
de 1/3 leva 30 minutos de deslocamento para recolher água de alguma fonte.
Quase outro terço ingere água não tratada de reservatórios aquáticos, como
lagos, rios e canais de irrigação. De acordo ainda com a OMS, são necessários
entre 50 e 100 litros de água por pessoa por dia para as necessidades básicas.
A maior parte dessas pessoas que tem problema de acesso à água potável consome
5 litros diários, 1/10 da quantidade necessária. Precisamos falar da cultura do
desperdício e de desigualdade social.
Jesus
era um periférico. Não era cidadão romano, nem parte da elite judaica. Nasceu
em Belém em região ultraperiférica. “O Espírito do Senhor está permanentemente
sobre mim, pois me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os
quebrantados de coração, a pregar liberdade aos cativos, a restauração da vista
aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do
Senhor” (Lucas 4, 18-19). José Tolentino explica que “Jesus vinha colocar em
perspectiva a realização da salvação de Deus, salvação que, segundo ele, atuava
já no presente através da dignificação da vida para todos e da capacidade de
reconciliar os periféricos (fossem doentes, endemoninhados, pobres,
estrangeiros...), esse coral de segregados das várias culturas inscritas naquele
microterritório dos confins. O constante retrato que os Evangelhos dão de Jesus
como comensal e amigo dos pecadores assinala igualmente essa vontade firme de
avizinhar as periferias, que eram morais e de etnia, de gênero, cultura ou de
classe”.
A
Igreja não pode se enclausurar em si mesma, pois vira o centro de si mesmo,
causa e fim, nem mesmo se tornar seu único referencial. Se assim o faz, a
Igreja adoece, torna-se narcisista. O mundo é visto por nós pelos centros (de
poder, de privilégio) ou pelo olhar das periferias?
Jesus,
nosso maior exemplo, quando partiu deste mundo só deixou sua túnica. Assim,
recorda-nos o teólogo: “o que nos enfraquece não é, de fato, a escassez, mas a
sobreabundância; não é a vulnerabilidade, mas o poder malcompreendido na sua
finalidade; não é a fragilidade, mas sim o desperdício. O que nos enfraquece é
não termos escutado até o fim o apelo que está por detrás da fome e da sede”.
Carolina
Maria de Jesus foi uma escritora brasileira mais reconhecida atualmente. Seus
diários escritos na favela do Canindé, na cidade São Paulo onde ela morava nos
anos de 1950, foram encontrados e lidos pelo jornalista Audálio Dantas que
publicou seus textos no livro Quarto de Despejo. Escritos gramaticalmente
equivocados, Carolina teve poucos anos de estudo regulares, mas
linguisticamente preciosos os textos são de uma verdade das periferias do mundo
que só quem vive e convive ali poderia escrever.
Vou
ler um trecho para vocês:
13 de Maio.
Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpatico para mim. É o dia da Abolição. Dia
que comemoramos a libertação dos escravos.
...Nas prisões os negros eram os bodes
expiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com
desprezo. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz.
Continua chovendo. E eu tenho só feijão e
sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou
escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros.
Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um
pouco. Vou sair. ...Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas
de comer eles brada:
– Viva a mamãe!
A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi
o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei o
João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Ela não tinha. Mandei-lhe um
bilhete assim:
– “Dona Ida peço-te se pode me arranjar
um pouco de gordura, para eu fazer uma sopa para os meninos. Hoje choveu e eu
não pude catar papel. Agradeço, Carolina”.
...Choveu, esfriou. É o inverno que
chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não
tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia
comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a
Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu
lutava contra a escravatura atual – a fome!
Hoje,
no Brasil, 33 milhões de pessoas passam fome.
O
arcebispo católico Dom Helder Camara dizia “se prestarmos ajuda assistencial
aos pobres dirão que somos santos; mas se perguntarmos ‘por que é que existem
pobres’, dirão que somos perigosos revolucionários”.
Que nós
possamos seguir refletindo e praticando sempre, na diária reforma íntima, sobre
as nossas sedes espirituais tão necessárias de serem resolvidas e realimentadas,
como também sobre as sedes, fomes e faltas em geral da população do mundo.

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