A autocompaixão em relação aos outros

 

(Esta palestra, de minha autoria, foi proferida em 23/01/2023 no 

Centro Espírita Verdade e Caridade em Bauru-SP)


Na palestra anterior, falamos da autocompaixão, a capacidade de ser autoconsciente, autoperdoar, autoconfiar, autocuidar. É o amor consigo mesmo. Hoje, vamos seguir atrelando os ensinamentos da psicóloga da Universidade da California, Kristin Neff, ao espiritismo a partir do livro Autocompaixão – Pare de se torturar e deixe a insegurança para trás. Hoje vamos focar na autocompaixão em relação aos outros.



Ter compaixão não significa ter autocompaixão

          Na nossa cultura e religião ocidental, há uma interpretação cientificamente equivocada de que devemos simplesmente ter compaixão, não ligada à autocompaixão. Isso é mais comum de ser observado entre as mulheres. Devem ser amantes, babás, empregada doméstica, cozinheira, sempre servindo, sempre cuidando, cuidadoras abnegadas. E quem cuida delas? Nem mesmo elas mesmas se veem no direito de serem cuidadas por si mesmas.

          Autocompaixão significa reconhecer que o indivíduo nunca dará conta de tudo, nem mesmo cada vez mais. É entender limites. Entender e deixar de sofrer pelo que não está ao seu alcance. É uma busca por equilíbrio. Como se cuidar.

          Um exercício para colocar em prática:

          - Faça uma massagem;

          - Tire um cochilo no meio do dia;

          - Vá assistir a uma comédia;

          - Ouça uma canção relaxante;

          - Alongue-se ou faça ioga por meia hora;

          - Caminhe na natureza;

          - Deite-se no chão;

          - Dance;

          - Tome uma taça de chá ou de vinho.

Sobre o perdão

          As pessoas autocompassivas são significativamente mais propensas a perdoar os outros por suas transgressões, uma vez que se a pessoa trabalha o autoperdão, ela trabalha a bondade, a atenção plena (consciência) e a interligação/conexão, nossa humidade comum. Ela não é a única que erra, o outro também não. É mais fácil ter empatia, se colocar no lugar do outro, quando passamos pelo processo de autocompaixão.

          “É importante lembrar que o perdão não significa tolerar maus comportamentos nem interagir com pessoas que nos magoam. A sabedoria discriminativa vê claramente quando uma ação prejudicial ou mal adaptativa e quando temos que nos proteger daqueles mal-intencionados. No entanto, também entende que todas as pessoas são imperfeitas e todos nós cometemos erros. Muitas vezes as pessoas agem com ignorância, imaturidade, medo ou impulso irracional, e não devemos julgá-las por suas ações como se tivessem controle consciente e a absoluto de seus atos. Mesmo nos casos em que as pessoas são conscientes do dano que estão causando, a pergunta ainda precisa ser feita: o que a fez perder o contato com o seu coração? Que ferimento a levou a esse tipo de comportamento frio e insensível? Qual é a sua história? Ser humano significa cometer erros às vezes. Por isso, ao julgar uma pessoa, julgamos todo o mundo. Mas, ao perdoar uma pessoa, também perdoamos todo o mundo, incluindo a nós mesmo”, explica Kristin. (p.197-198)

Autocompaixão no dia a dia: todas as circunstâncias

          Podemos praticar a empatia, o se colocar no lugar dos outros, o tempo todo. Na ida ao trabalho, no supermercado ou no consultório do dentista.

Sobre pais e filhos

          Sobre a autocompaixão de pais para com os filhos: “nossas ações educam muito mais do que nossas palavras. Por isso, devemos ser o que queremos que nossos filhos se tornem”. “Todo mundo erra em um momento ou outro”. Pais e filhos devem treinar o pedido de desculpas. Somos imperfeitos e isso em nada tira a autoridade de um pai, mas mostra sua autocompaixão e compaixão. “Errar não é o fim do mundo”.

          Não seja cruel consigo mesmo quando errar, nem com seus filhos, não seja um crítico excessivo. Esse processo só afasta da autocompaixão e compaixão.

          Um exemplo que Kristin nos traz: “Considere a situação em que um dos meus alunos de pós-graduação, Pittman, enfrentou meses atrás. Ele e sua esposa, Merilee, recentemente tiveram uma menina. Como resultado, seu filho Fiin, de três anos de idade, começou a apresentar “comportamentos desafiadores”. Um dia, quando chegou em casa, Pittman encontrou seu filho, que já ia ao banheiro sozinho, fazendo xixi na parede da sala de estar. Quando Pittman o repreendeu, o menino se virou para o pai, lançou-lhe um sorriso maligno e disse: “Eu te odeio”. Por sorte, Pittman pratica a autocompaixão! Embora qualquer um entendesse se tivesse perdido a paciência, ele foi capaz de permanecer calmo. Respirou profundamente algumas vezes e ‘deu-se’ compaixão para encarar o momento difícil e desafiador. Isso o ajudou a se reorientar e a se lembrar de que, para além das aparências, Finn não estava simplesmente sendo malcriado. Seu filho estava realmente sofrendo bastante com a emoção humana do ciúme e, aos três anos de idade, não estava preparado para lidar com isso. Em vez de sentir raiva de Finn, portanto, Pittman se sentou e pôs o braço em seu ombro. Em primeiro lugar, reconheceu os sentimentos de frustração do filho com a mudança na rotina familiar. “Eu sei que está sendo difícil para você agora que a sua irmãzinha ocupa tanto a nossa atenção. Mas a sua mãe e eu te amamos mais do que nunca”. O mau humor de Finn, assim como o seu, começou a sumir quase instantaneamente. Pittman até achou graça da situação sabendo que teria uma boa história para contar no futuro. Quanto mais Finn se sentir seguro quanto ao amor e ao apoio de seus pais durante o período de adaptação à irmãzinha, especialmente quando não agir corretamente, mais ele vai perceber que o amor de seus pais é inabalável (apesar de ser as paredes correrem o risco de ficar um pouco manchadas)”. (p. 211-212)

          Adolescentes tem geralmente a autoavaliação desfavorável. Estão em um momento de intensas pressões: “desempenho acadêmico, necessidade de se encaixar com a multidão de seus pares, preocupação com atividade sexual. Para piorar as coisas, a introspecção na adolescência muitas vezes leva ao que se chama de ‘fábula pessoal’. (...) os adolescentes têm dificuldade de compreender a experiência humana compartilhada”, então pensam que seus pensamentos são únicos. Nessa etapa, pais precisam utilizar-se ainda mais da autocompaixão.

Sobre o relacionamento romântico

          Quanto ao amor romântico, “é um dom maravilhoso ver a própria beleza refletida nos olhos do outro”. “A chave não é se um casal tem conflito (mostre-me o casal que não tem), mas como eles o resolvem. Um relacionamento fadado ao fracasso é o que tem crítica, desprezo (revirar os olhos, sarcasmo), defensividade (quando o parceiro sempre está errado) e obstrução (quando se impede o outro de falar). Mas se durante o conflito qualquer um dos parceiros demonstrar um olhar amável, pequeno gesto de carinho, uma desculpa, risos, essas relações têm chance de durar.

          Para isso, a autocompaixão deve ser chamada à cena. “A autocompaixão nos permite tranquilizar e acalmar a intensidade dos nossos sentimentos. (...) Ficamos menos dispostos ao comportamento crítico, ao desprezo, ou à posição defensiva do ego durante uma discussão se temos a segurança emocional necessária para reconhecer o próprio papel na discussão. A autocompaixão também oferece a serenidade necessária para falarmos sobre questões difíceis da relação e pode reduzir barreiras. A autocompaixão tende a amolecer o nosso coração, deixando que o carinho por nossos parceiros o permeie e facilitando a manifestação de emoções positivas durante os conflitos. A autocompaixão nos permite levar o ego menos a sério. Por isso, às vezes podemos até encontrar o humor em nossas reações exageradas. (...) A sábia recomendação dos conselheiros de relacionamento é que os parceiros validem primeiro as emoções do outro antes de apresentarem seus próprios pontos de vista”, nos ensina Kristin. (p. 224-225)

          “Para construir a relação íntima e conectada que você almeja ter, é necessário, primeiro, sentir-se próximo e conectado a si mesmo. (...) A autocompaixão promove sentimentos de mutualidade nos relacionamentos, de modo a equilibrar e integrar as necessidades do casal. (...) A autocompaixão acolhe a imperfeição com amor, proporcionando o solo fértil necessário para o romance florescer verdadeiramente”. (p. 227)

Mais autocompaixão

          “Embora tentemos, não conseguimos controlar a vida de modo que ela seja exatamente como queremos. O indesejado e o inesperado acontecem todos os dias. No entanto, quando envolvemos o nosso sofrimento no casulo da compaixão, algo novo emerge. Algo maravilhoso, refinado, belo” (p. 242)

Sobre autoapreciação e alegria solidária

          Quando nos damos autocompaixão, não acolhemos simplesmente nossas dores e frustrações, sem apagá-las, porque fazem parte da vida, da felicidade, valorizamos nossas qualidades e virtudes, nos autoapreciamos e passamos a valorizar também a vida e a alegria ao nosso redor. Quando adotamos essa atitude, passamos a olhar o outro não com competição ou inveja, mas realmente apreciar as características positivas do outro, entendendo que ele é um ser único, assim como eu, incomparável. É a chamada “alegria solidária”. “Muito do nosso estado mental depende da nossa intenção de notar o bem. (...) Pessoas com autocompaixão também tendem a estar mais satisfeitas com suas vidas. A autocompaixão amplia a perspectiva. (...) Por sermos uma expressão única da força vital universal que anima toda nossa experiência, honramos tudo, quando honramos a nós mesmos”. (p. 250, 252-253, 268).

A paciência a e o perdão (algumas das faces da autocompaixão)

          No capítulo IX do Evangelho Segundo o Espiritismo, Bem-aventurados os que são dóceis e pacíficos, há o intertítulo “A paciência”. Vou lê-lo na íntegra:

A dor é uma benção que Deus envia a seus eleitos. Não vos aflijais, pois, quando sofrerdes, mas, ao contrário, bendizei o Deus todo poderoso que vos marcou com a dor aqui para a glória no céu.

Sede pacientes; a paciência também é uma caridade, e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil das caridades. Mas há uma bem mais penosa, e consequentemente bem mais meritória: perdoar àqueles que Deus colocou em nosso caminho para serem os instrumentos de nossos sofrimentos, e pôr em prova nossa paciência.

A vida é difícil, eu o sei; ela se compõe de mil ninharias que são alfinetadas que acabam por ferir. Mas é preciso olhar tanto os deveres que nos são impostos quanto as consolações e as compensações que recebemos. São então veremos que as bençãos são mais numerosas que as dores. Quando se olha do alto, o fardo parece menos pesado do que quando se curva a fronte para o chão.

Coragem, amigos, o Cristo é vosso modelo. Ele sofreu mais que qualquer um de vós, e não tinha nada a se repreender, enquanto vós tendes que expiar vosso passado e fortalecer-vos para o futuro. Portanto, sede pacientes, sede cristãos, essa palavra encerra tudo. (Um espírito amigo, Le Havre, 1862)

Tudo começa na autocompaixão e a força para nos amarmos vem de Deus. É melhorando nosso cenário interior que vamos mudar o mundo, dentro do limite que nos cabe a cada um. Amando o próximo como a nós mesmos.

 

A Madalena fora ao túmulo querido

Entre pedras de extremo desconforto...

Levava flores para o Mestre morto,

Tinha o peito magoado e enternecido.

 

O Sol reaparecia, resplendente,

A névoa da manhã fundia-se no ar,

Na dourada invasão das flamas do Nascente,

Maria estava ali, unicamente,

A fim de estar a sós, recolher-se e chorar.

 

A desfazer-se em pranto, ela argüía:

- “Por que, por que Senhor?

Tanta saudade e tanta dor?!...

Toda a felicidade que eu sentia

Jaz aqui sepultada...

Transformou-se-me a vida em sombra e nada

No ermo deste pouso derradeiro...”

 

Nisso, ela viu alguém... Seria um jardineiro?

Um zelador daquele campo santo?

Mas tomada de espanto,

Viu-se à frente do Mestre Nazareno,

O excelso benfeitor ressuscitado,

A envolver-lhe de paz o coração cansado...

Ela gritou: “Senhor!”

Ele disse: “Maria!”

Ela era a expressão da perfeita alegria,

Ele, o perfeito amor.

 

Madalena ajoelhou-se e quis beijar-lhe os pés...

- “Maria, por quem és” – explicou-se

“Não me toques, porquanto

não te esperava aqui neste recanto,

e ainda não fui ao Pai revestir-me de luz...”

 

Maria, surpreendida,

indagou em seguida:

- “Senhor, onde estiveste?

Em que jardim celeste

Encontraste o descanso necessário,

Que vem de Deus, nos dons da paz completa?

Perdoa-me, Senhor, a pergunta indiscreta,

Dói-me, porém, pensar na angústia do Calvário,

Revolto-me, padeço, mas não venço

A mágoa de lembrar-te o sacrifício imenso”

 

Mas Jesus respondeu:

- “Não, Maria, não fui ainda ao Alto,

Nem me elevei sequer um palmo à luz do firmamento,

Quem ama não consegue achar o Céu de um salto...

Ao invés de subir aos Altos Resplendores,

Desci, mas desci muito aos reinos inferiores...

Despertando no túmulo, escutei

Os gritos da aflição de alguém que muito amei

E que muito amo ainda...

Embora visse Além, a Luz sempre mais linda,

Sentia nesse alguém um amado companheiro,

Em crises de tristeza e de loucura...

Fui à sombra abismal para a grande procura

E ao reencontrá-lo amargurado e louco,

A ponto de não mais me conhecer,

Demorei-me a afagá-lo e, pouco a pouco,

Consegui que ele, enfim, pudesse adormecer...”

 

- “Senhor” – interrogou a Madalena

“Quem é o amigo que te fez descer,

Antes de procurar a luz do Pai?”

Mas Jesus replicou, em voz clara e serena:

- “Maria,

um amigo não esquece a dor de outro amigo que cai...

Antes de me altear à Celeste Alegria,

Ao sol do mesmo amor a Deus, em que te enlevas,

Vali-me, após a cruz, das grandes horas mudas,

E desci para as trevas,

A fim de aliviar a imensa dor de Judas”.

Poema: Amor de perdão, do livro Coração e Vida, psicografia de Chico Xavier pelo espírito Maria Dolores.

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