Autocompaixão: Amar ao próximo como a si mesmo
(Esta palestra, de minha autoria, foi proferida em 07/11/2022 no
Os
fariseus, tendo sabido que Ele fechara a boca dos saduceus, reuniram-se; e um
deles que era doutor da lei, propôs-lhe esta questão, para o tentar: Mestre,
qual é o maior mandamento da lei? – Jesus respondeu: Amarás o Senhor teu Deus
de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este é o
maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Toda a lei e os profetas se acham
contidos nesses dois mandamentos. (Mateus, 22:34 a 40)
Nós
não vamos falar hoje da parte mais dita interpretada dessa frase “Amarás o teu
próximo”. Vamos falar do “como a ti mesmo”. Ninguém consegue dar o que não tem.
Então, apesar de que amar e se amar seja um movimento que se retroalimenta,
tudo começa no autoamor.
Não
existe autoamor sem autocuidado, sem autoperdão, sem autocompaixão. Assim como
não existe amar, cuidar, perdoar, sentir compaixão pelo outro se não
alimentamos esses sentimentos primeiro em nós mesmos. É dando que se recebe,
mas precisamos dar primeiro a nós mesmos.
Isso
não tem nada a ver com egoísmo, o egoísmo é um adoecimento do “amar ao próximo
como a si mesmo”. No egoísmo a pessoa quer tudo pra si e só pra si. Na
autocompaixão ela se reconhece como ser conectado com os outros, sejam eles
quem for e, por isso, se cobra menos, reconhece sua imperfeição, porque todos
somos imperfeitos, amplia sua resiliência, sua capacidade de suportar com
sabedoria e entendimento, pra colher os frutos do sofrimento. Sim, porque todo
mal é um bem final. Tudo e todos colaboram para a nossa evolução espiritual.
No
Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XI, Amar ao próximo como a si mesmo,
ensina: “O amor resume a doutrina de Jesus inteira, porque é o sentimento por
excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso
feito. Em sua origem, o homem só tem instintos; quanto mais avançado e
corrompido, só tem sensações; mais instruído e purificado, tem sentimentos. E o
ponto delicado do sentimento é o amor, não o amor no sentido vulgar do termo,
mas esse sol interior que condensa e reúne em seu ardente foco todas as
aspirações e todas as revelações sobre-humanas. A lei do amor substitui a
personalidade pela fusão dos seres; extingue as misérias sociais. Feliz aquele
que, ultrapassando a sua humanidade, ama com amplo amor seus irmãos em
sofrimento! Feliz aquele que ama, porque não conhece a miséria da alma e do
corpo; seus pés são ligeiros e vive como que transportado, fora de si mesmo.
Quando Jesus pronunciou a divina palavra – amor, os povos estremeceram e os
mártires, ébrios de esperança, desceram ao circo”.
Lembro
a vocês que o Espiritismo está baseado no tripé: Filosofia, Religião e Ciência.
Pensando nisso, trouxe como base da nossa palestra não só o Evangelho Segundo o
Espiritismo e o próprio Evangelho, mas também uma pesquisadora da
área de psicologia da Universidade da Califórnia nos EUA, Kristin Neff, também
budista, autora de Autocompaixão – pare de se torturar e deixe a insegurança
para trás. Precisamos muito conectar o Espiritismo do nosso século XXI à ciência
contemporânea, porque esta amplia ainda mais as interpretações das obras
básicas. E isso inclui as ciências humanas e sociais principalmente, porque são
do campo das ideias.
A
partir de uma ótica espírita, precisamos destacar também que o homem não criou
a ciência. O homem desvenda as leis naturais criadas por Deus e, a isso, ele
chama de Ciência. Ciência e religião não podem se contradizer, porque como
criadas pela causa primária de todas as coisas, Deus, uma estaria fatalmente
errada. Se assim o fosse, admitiríamos que Deus erra. Sabemos que não é verdade,
porque não seria Deus, porque Deus é perfeito. E isso está no primeiro capítulo
de O Evangelho Segundo o Espiritismo – Não vim destruir a lei, tópico “Aliança
entre a Ciência e a Religião”.
A
insegurança, a ansiedade e a depressão são extremamente comuns na humanidade.
Muito disso está relacionado ao autojulgamento, explica Kristin. Precisamos
trabalhar a autoaceitação, devemos nos tratar com a mesma bondade e carinho que
tratamos um amigo e não ser nosso principal inimigo. “Não há quase ninguém que
tratemos tão mal quanto a nós mesmos”.
Quanto
mais nos julgamos, mais criamos barreiras em relação aos outros, sentimentos de
separação e isolamento, movimento oposto ao amor universal. Autocompaixão não
tem a ver com autoestima, porque a autoestima pressupõe se sentir melhor, portanto,
superior aos outros. Autocompaixão significa autoacolhimento. Não
tem a ver também com autopiedade, porque não significa ficar se lamentando
parado no mesmo lugar. Autocompaixão significa autocompreensão do próprio
sofrimento.
Importante
dizer que todas as vezes que ignoramos um sofrimento e seguimos adiante, ele
não se resolve, ele cresce. É como se escondêssemos a sujeira embaixo do
tapete. E uma hora ela pode vir violenta e não há nada a fazer senão ser
obrigado a pausar de algum modo a caminhada pra lidar com os problemas
acumulados.
É
difícil falar nesse assunto, uma vez que a sociedade ocidental se pauta na
independência e realização individual. Se não alcançamos nossos objetivos,
sentimo-nos culpados e se falhamos significa que não merecemos compaixão. Mas
todo mundo tem o direito à felicidade, e todo mundo erra.
Autocompaixão
tem a ver com saúde integral e bem-estar emocional. “Eu sou o caminho, a
verdade e a vida, ninguém vai ao Pai senão por mim” (João 14:6); “Mas o que
beber, da água que eu lhe der, jamais terá sede” (João 4:14).
Os
problemas dos outros não são mais importantes que o meu, os meus problemas não
são mais importantes que o dos outro. Nossos problemas têm a mesma
importância, todos os problemas são dignos de serem atendidos. Isso é
autocompaixão e compaixão.
Quando
abraçamos a experiência humana com bondade e amor, “evitamos os padrões
destrutivos do medo, da negatividade e do isolamento. Ao mesmo tempo, a
autocompaixão promove estados mentais positivos, como a felicidade e o
otimismo. Cultivar a qualidade da autocompaixão nos permite florescer e apreciar
a beleza e a riqueza da vida, mesmo em tempos difíceis. Quando acalmamos nossas
mentes agitadas com a autocompaixão, somos mais capazes de perceber o que está
certo e o que está errado. Podemos nos orientar na direção do que nos dá
alegria”.
“O
amor-próprio muitas vezes parece não ser correspondido”. Deixamos uma
necessidade nossa inadiável para trás, para atender os outros. Não é isso que
Cristo espera da gente. Isso não é amor, nem por si mesmo, nem pelo próximo. Precisamos ter equilíbrio e precisamos entender que cuidar de nós mesmos é uma
necessidade básica e é uma lei.
O
perfeccionismo é uma falta de autocompaixão. “O ‘bom’ não é o suficiente para
alguém tão acostumado à excelência”. Isso porque, o perfeccionismo leva ao
autojulgamento e autocrítica excessivos, causando diversos problemas físicos,
mentais, emocionais e espirituais para o indivíduo. Isso acontece
principalmente com as mulheres devido à cultura que compartilhamos.
Falta
de autocompaixão leva também a decisões ruins. “A inadequação e a inferioridade
são associadas a atos de autoflagelo, como o uso abusivo de álcool, a direção
perigosa proposital ou ao ato de cortar os pulsos, tentativas reais de
exteriorizar e liberar a dor emocional. Em casos extremos, quando a autocrítica
passa anos sem ser controlada, um autoflagelo implacável pode se tornar um
estilo de vida e pode-se optar por fugir da dor escapando da própria vida. Uma
série de estudos em larga escala descobriu que autocríticos extremistas são
muito mais propensos a tentar o suicídio do que os outros. Sentimentos de
vergonha e insignificância podem levar a uma desvalorização de si mesmo, a
ponto de dominar o nosso instinto mais básico e fundamental: a vontade de
permanecer vivo. (...) No mundo, estima-se que entre dez e 20 milhões de
pessoas tentam suicídio a cada ano. Infelizmente, esse ato chocante de
violência é, muitas vezes, apenas uma manifestação exterior da violência
interna mais familiar para nós: a dura autocrítica”.
A
autocrítica exagerada é uma forma distorcida de autocuidado. A melhor maneira
de combatê-la, “é compreendê-la, ter compaixão por ela e, depois, substituí-la
por uma resposta mais amável. Ao nos deixarmos comover pelo sofrimento que
experimentamos nas mãos de nossa própria autocrítica, fortalecemos o desejo de
nos curarmos. Por fim, depois de batermos a cabeça contra a parede por muito
tempo, damos um basta e exigimos o fim da nossa dor autoimposta”. Precisamos
deixar pra lá o ideal perfeccionista e abraçarmos a vida como ela é, tanto a
luz, como a sombra, seguindo o fluxo da vida alimentando a fé, a esperança e a
paz.
“Nossos
modelos internos não estão gravados em pedra, eles podem ser alterados”. E
devem! É pra isso que estamos em mais uma reencarnação, pra nos melhorarmos,
para amar, ser amado e antes de tudo, nos amar pra conseguir amar e receber
amor.
O
exercício:
1.
“O primeiro passo para mudar a forma como você
se trata é perceber quando estiver sendo autocrítico. (...) [Estou me julgando
demais?][Mas porque estou falando assim comigo?]
2.
Faça um esforço efetivo para suavizar a voz
autocrítica. Deve fazê-lo com compaixão e não com autojulgamento. [Eu errei,
mas todos erramos... Você é imperfeito, não se cobre tanto]
3.
Reformule as observações feitas pelo seu
interior crítico de uma forma gentil, amigável e positiva. Se estiver tendo
problemas para pensar nas palavras que deverá usar, imagine o que um amigo
muito compassivo diria a você nessa situação. [Eu quero que você seja feliz,
então por que não vai dar uma caminhada para espairecer?... Vai te ajudar, faça
um chá de camomila].
O
Espiritismo, que é o Cristianismo Redivivo, nos convida a abrir-nos a nós
mesmos. É o trabalho da reforma íntima, indispensável para a evolução moral de
todos nós. Precisamos olhar pra dentro, buscar nos perceber, nos conhecer,
porque só assim poderemos amar a nós mesmos e ao próximo, fazendo cumprir o
mandamento que resume todas as leis e todos os profetas.
A
resiliência, nossa capacidade de suportar e renascer pra nós mesmos e para o
mundo, tem um limite tolerável neste exato momento pra cada um de acordo com as
experiências que viveu e com a forma como as encarou. O maravilho de saber é
que nós sempre temos a capacidade de ampliar a resiliência, aceitando com
resignação a dor e renascendo para nós mesmos e para a vida.
“Quando
me aceito como sou, então, posso mudar, curioso paradoxo” frase de Carl Rogers,
em Tornar-se Pessoa. A autoaceitação está intimamente ligada à autocompaixão.
Mas como nos aceitamos? Como nos reconhecemos? Sempre nos questionando, o que
está dentro da gente e o que vem de fora da gente e aceitamos. Precisamos tomar
cuidado com as nossas verdades absolutas, porque nada é absoluto a não ser
Deus. Precisamos reconhecer nossa ignorância sobre tudo o que ainda não
conhecemos. Por isso, o sábio grego Sócrates diz na frase célebre: “Só sei que
nada sei”. Porque diante do que não sei, não sei nada. Se apegar às verdades
absolutas denota orgulho. Precisamos treinar sempre a humildade, sem ela é
impossível aprender. Evoluir significa sempre aperfeiçoar ou mudar nossas
ideias. O Evangelho é uma verdade, mas toda intepretação dele é uma verdade relativa
de acordo com o adiantamento da humanidade e de cada um. Não podemos levar
absolutamente nada a ferro e fogo, mas sempre usar nossa razão como conduta
para decidir entre o que nos convém a nós e aos outros de acordo com aquilo que
Jesus nos ensinou, essa deveria ser a nossa moral, dos que se dizem e, na
verdade, tentam ser cristãos. A ética são nossos valores sociais. Como
cristãos, ela também deveria estar influenciada pelo Evangelho do Cristo.
A
autocompaixão aumenta nosso nível de autoconfiança e isso tem um grande impacto
na nossa capacidade de atingir objetivos. A autocrítica tem como motivador o
medo e, consequentemente, a ansiedade, a insegurança e o nervosismo que
boicotam o desempenho. A força motriz da autocompaixão é o amor,
por isso permite o sentimento de confiança e segurança. “A autocompaixão quer
curar as disfunções, não as perpetuar. (...) O esforço oriundo da autocompaixão
não é resultado do esforço egoísta, mas do desejo natural de amenizar o
sofrimento. Se queremos progredir, (...) não temos que ser cruéis conosco nesse
processo. Podemos ser gentis e solidários enquanto nos envolvemos na difícil
tarefa de mudar. (...) Pessoas autocompassivas estão mais orientadas para o
crescimento pessoal do que aquelas que criticam a si mesmas continuamente”.
“Pessoas
autocompassivas são mais propensas à aprendizagem. (...) A pesquisa também
indica que o fracasso é menos propenso a danificar as crenças de eficácia nas
pessoas autocompassivas, porque essas não são tão duras consigo quando caem:
têm confiança suficiente em suas habilidades para levantar e tentar novamente.
Na verdade, um estudo recente descobriu que, quando as pessoas com
autocompaixão são forçadas a desistir de um objetivo importante para elas –
algo inevitável em algum momento da vida - , tendem a reorientar sua energia em
um objetivo novo e diferente. Os autocríticos, por outro lado, são mais
propensos a jogar a toalha. As pessoas autocompassivas costumam procrastinar
menos e relatam ser menos preocupadas com a percepção de sua performance.
Portanto, não exigem uma desculpa plausível pela falha”.
A autocompaixão
definitivamente não leva à complacência e à inércia, muito pelo contrário. Ao
perder o medo do fracasso, tornamo-nos livres para desafiarmo-nos em um grau
muito maior. Ao mesmo tempo, ao reconhecer as limitações do ser humano, somos
mais capazes de reconhecer quais metas funcionam para nós e quais não
funcionam. Além disso, somos capazes de identificar quando é hora de assumirmos
uma nova abordagem. Longe de ser uma forma de autoindulgência
[autoperdão], a autocompaixão nos inspira a perseguir nossos sonhos e cria uma
mentalidade corajosa, confiante, curiosa e resiliente que nos permite realmente
alcançá-los”.
O
sonho inspirado na autocompaixão tende a produzir a verdadeira felicidade, as
pessoas são mais autênticas e autônomas. “A autocompaixão pode nos
levar a fazer escolhas não convencionais, mas essas serão as escolhas certas
feitas pela razão certa – o desejo de seguir os nossos corações, sem
autocrítica, sem medo de ser julgado ou rejeitado.
Autocompaixão
significa aceitar o próprio corpo. A beleza é hipervalorizada na nossa
sociedade, uma das áreas mais importantes para a autoestima é o senso de
atratividade. “Espera-se que as mulheres sejam magérrimas, mas, também, super cheias
de curvas; um ideal quase impossível de alcançar sem cirurgia plástica e dieta
constante. (...) Para alguns, a obsessão com a magreza leva a distúrbios
alimentares, tais como anorexia ou bulimia [ou a compulsão alimentar]. Pessoas
com transtorno compulsivo alimentar vivem presas em uma espiral infeliz – combustível
da depressão conduz à obesidade, e esta leva a mais depressão. (...) Se o seu
objetivo é ser saudável, então realmente não importa se você sair da dieta de
vez em quando. (...) Ter compaixão por si mesmo quando sair da dieta pode
reduzir a tendência a comer em excesso para se reconfortar. (...) O exercício
físico também é importante para ser saudável. Uma pesquisa sugere que as
pessoas autocompassivas tendem a se exercitar pelas razões certas. A pesquisa
também mostra que as pessoas autocompassivas são mais confortáveis em relação
ao seu corpo. (...) Estar confortável em sua própria pele permite que você se
concentre no que é realmente importante: ser saudável, com aparência boa sempre.
(...) O caminho prudente é aceitar nossa imperfeição, reconhecendo que a beleza
vem em todas as formas e tamanhos diferentes, ao mesmo tempo que nutrimos nossa
saúde física e bem-estar”.
Cultivemos
o autoamor, a autocompaixão, a autobondade, o autoperdão. É a partir desse
caminho que vamos viver melhor e fazer desse mundo um lugar melhor de se viver,
mais amoroso e compassivo.
Não
desistas de ti
Por
mais tenhas fracassado em tuas reiteradas tentativas de renovação íntima, não
desistas de ti.
Se
hoje tornaste a cair, refaz os teus propósitos de não mais caíres amanhã.
Fazendo
o Bem na medida de tuas forças e possibilidades, resiste à definitiva
influência do Mal em tua vida.
Ainda
que seja em passos extremamente vagarosos, não deixes de caminhar para a frente.
Não te
acomodes na imperfeição, mas também não queira transpô-la de um salto.
Situado
na escuridão do abismo mais profundo, não te desanime a distância
incomensurável que te separa do brilho das estrelas.
Um
dia, todo espinho há de ser flor!
Do livro Pai,
perdoai-lhes. Do espírito Irmão José, pelo médium Carlos Baccelli.

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