A Igreja do Cristo na Terra
(Esta palestra, de minha autoria, foi proferida no dia 03/12/2018 no
Centro Espírita Verdade e Caridade de Bauru-SP)
O espiritismo, como doutrina enviada no tempo
predito pelo Cristo, observando o progresso moral e intelectual dos espíritos
da Terra, propõe-se o Cristianismo Redivivo, tentando resgatar o Evangelho em
sua essência, ora distorcido e alterado. Os ensinamentos do Cristo, muito mais
do que feitos para contemplação e sua lembrança para adoração, é prática, ação
no mundo. Isso também é rememorado pelo espiritismo. Jesus não nos disse para
fugirmos do mundo e nos escondermos dentro da Igreja, mas sim que a partir do
conhecimento que adquiríssemos ali, fôssemos o sal da Terra no mundo inteiro,
em todas as épocas, com todas as pessoas e em todos os lugares. Jesus, seus
apóstolos e discípulos como Paulo de Tarso, caminharam por grandes extensões de
terras, visitaram cidades, pregaram, mas principalmente praticaram o bem. João
Batista, nas anotações de Lucas 3:17, revela Jesus como o trabalhador que tem a
pá nas mãos.
A personagem real Alcíone, o anjo que desceu à
Terra no século XVII para uma vida de renúncia por amor aos seus entes queridos,
e se encontrava naquele momento na condição de freira sob o nome de Maria de Jesus
Crucificado, encontrava-se em embate com Frei Osório, um desviado dos caminhos
do Cristo. Sua história é contada no livro Renúncia, psicografia de Francisco
Cândido Xavier pelo espírito de Emmanuel. Alcíone, disse-lhe na ocasião que o
apostolado de Jesus:
[...] foi integralmente de realização e
movimento, [que] era impossível atender à salvação do mundo, afastando-se de
suas necessidades. Por essa razão, vemos o Messias entre fariseus e publicanos,
nas festividades domésticas e nos ajuntamentos da praça pública, dando cumprimento
à sua missão de amor. (...) A atividade do Mestre, a que fomos chamados, é a de
colaboração com o seu devotamento na causa da paz e da felicidade humana” (p. 357)
Prosseguiu Alcíone em suas colocações:
[...] por vezes, padre, em nossas missas
solenes, quando o luxo dos altares impressiona os nossos olhos, julgo que o
Mestre está às portas do Templo, confortando as viúvas descalças e rotas, que
não puderam penetrar no santuário pela deficiência das vestes. Por que manter o
rigor das regras humanas quando o ensinamento da caridade cristã é tão simples
e tão puro? Por que repetirmos uma prece mil vezes (...) e negarmos dois
minutos de palestra carinhosa ao infortunado? Não seria essa nossa estranha
atitude a perfeita personificação daquele sacerdote indiferente da Parábola do
Bom Samaritano? Não considero a fé um meio de obter favores do Céu, ao sabor [da
nossa vontade], e sim um tesouro do Céu, que a Terra está esperando, por nosso
intermédio. (p. 358)
Nisso, o espiritismo se aproxima da Igreja do
Cristo, mas não é ela. Jesus não deixou igreja, somente seu evangelho que nada
mais foi do que o exemplo de seu amor com todos. A Igreja do Cristo é atemporal
e não tem espaço definido, ela é espiritual. É independente de instituições,
pessoas e denominações. Ela é única, sem fazer com isso segregação de pessoas e
culturas, na verdade abrange a todas. Ela não pode ser apropriada. Ela é construída,
assimilada, dentro de cada um, sem a ele pertencer, todas as vezes que se tenta
colocar em prática as virtudes e observar os próprios defeitos, assim como o
Reino dos Céus. Porque nós também somos um templo, “[...] ou não sabeis que o
vosso corpo é o templo do espírito santo?” (1 Coríntios 6: 19, 20). Será um dia
praticada por todos os homens, quando prevalecer em cada um deles o amor. As instituições
religiosas que hoje temos são imperfeitas assim como os homens que as professam.
Até por isso não devemos idolatrar a nada, nem ninguém. Nosso único exemplo e
modelo é Jesus Cristo. Temos ajudado a construir em nós mesmos o Reino dos Céus
e colaborado com a Igreja do Cristo na Terra em todas as nossas ações do nosso
cotidiano e em todos os setores da nossa vida?
Alcíone continua exortando:
[...] a Igreja do Cristo é inviolável.
Nossas fraquezas não a atingem. (...) Ninguém destruirá, na Terra, a Igreja de
Jesus. Ainda que todos os homens se conluiassem contra ela, o instituto cristão
continuaria puro e intangível. Devemos considerar, contudo, que todos os
elementos humanos, colocados a seu serviço sobre a Terra, hão de ser
necessariamente modificados. Nossos templos frios e impassíveis serão
transformados mais tarde em casa de amor, como lares de Deus, onde as criaturas
possam encontrar o verdadeiro culto da sua inspiração e do seu amor sublime. Os
conventos deixarão de ser âmbitos de sombra, para que o Mestre neles identifique
tabernáculos da fé e caridade puras. Nós, monjas, teremos interpretado o
serviço divino de outro modo, escalonando pelos hospitais, creches, asilos,
escolas (p. 358-359).
Vocês, disse ela à Frei Osório,
[...] por certo, compreendereis, afinal,
que os interesses [financeiros] deverão desaparecer das casas consagradas ao Cristo.
Por esta época, talvez, [vocês], os padres, [serão] como Paulo de Tarso
repartindo a tarefa entre o tear e a pregação, para que a Igreja não seja
acusada por nossos irmãos de Humanidade!... [Serão], talvez como Simão Pedro,
fiel até o fim, depois do período de negação! (p. 359).
Na época, a Espanha, contexto onde nesse
momento acontece a história, vivia os tribunais do Santo Ofício. Todos que questionassem
ou discordassem de qualquer conduta de superiores e das regras da igreja eram
considerados hereges, caluniosos e difamados pela Igreja Católica. Estes, eram
processados e punidos de acordo com as leis da igreja, não havia a noção
moderna dos direitos de todos, conquista com a Revolução Francesa, assim a
Igreja e o Estado poderiam processar e condenar a seu bel prazer. As
declarações de Alcíone foram consideradas heréticas para Frei Osório, sob
justificativa, segundo ele, de desconsideração aos teólogos católicos mais
eminentes e de interpretações audaciosas do Novo Testamento. Foi acusada de
rebelde e traidora aos princípios da fé, partidária dos diabólicos luteranos,
passíveis das mais fortes represálias. Por seu atrevimento, Alcíone foi processada
e punida com o cárcere, onde esteve até sua morte. Antes, contudo, rebateu o
frei: “O Mestre foi tido em conta de feiticeiro por muitos religiosos do
Judaísmo” (p. 360).
Não foi à toa que o apóstolo dos gentios, do
povo, Paulo de Tarso disse aos Gálatas 5:14 “[...] pois toda a Lei se resume
num só mandamento, a saber: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”. Ainda que
a Bíblia tenha sido adulterada proposital, de acordo com interesses políticos e
econômicos da Igreja, ou acidentalmente, ainda que textos sagrados tenham sido
retirados, a essência dos ensinamentos do Cristo, nosso modelo, não foi
alterada: o amor! Amar ao próximo como a si mesmo diz respeito a religiosos e a
não religiosos, diz respeito a todos. A Igreja do Cristo na Terra é a da
prática absoluta do amor com os nossos semelhantes assim como praticamos
conosco mesmos. Precisamos aprender a amar o outro para aprendermos nos amar,
precisamos aprender nos amar para aprendermos a amar o outro.
A prática do amor é a caridade. Não a que
humilha, ou a dada com o fim de ter a consciência tranquila. Mas sim o amor em
ação nas suas mais diferentes formas. Na questão 886 de O livro dos espíritos “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade,
como a entendia Jesus?” Caridade é então definida como “[...] benevolência para
com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”.
Ainda como resposta à pergunta, dizem os espíritos:
O amor e a caridade são o complemento da
lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja
possível e que desejaríamos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de
Jesus: Amai-vos uns aos outros como irmãos. A caridade, segundo Jesus, não se
restringe à esmola, abrange todas as relações em que nos achamos com os nossos
semelhantes, sejam eles nossos inferiores, nossos iguais, ou nossos superiores.
Ela nos prescreve a indulgência, porque de indulgência precisamos nós mesmos, e
nos proíbe que humilhemos os desafortunados, contrariamente ao que se costuma
fazer. Apresente-se uma pessoa rica e todas as atenções e deferências lhe são
dispensadas. Se for pobre, toda gente como que entende que não precisa
preocupar-se com ela. No entanto, quanto mais lastimosa seja a sua posição,
tanto maior cuidado devemos pôr em lhe não aumentarmos o infortúnio pela
humilhação. O homem verdadeiramente bom procura elevar, aos seus próprios
olhos, aquele que lhe é inferior, diminuindo a distância que os separa.
Devemos, como vimos, praticar a
caridade como indivíduo, isso não nos isenta em praticá-la também como coletivo
que formamos como sociedade. Em resposta à pergunta 685 de O livro dos espíritos,
capítulo 3, Lei do Trabalho, dizem os espíritos: “o forte deve trabalhar pelo fraco
e, na falta da família, a sociedade deve tomar o seu lugar: é a lei da caridade”.
Paulo de Tarso, o apóstolo convertido na
estrada de Damasco de fariseu e perseguidor, a cristão no seu mais verdadeiro e
profundo sentido da palavra, fez da sua vida a prática da Igreja do Cristo na
Terra. Em carta aos Coríntios, traduzida ao Espiritismo, no lugar de amor, como
caridade, mas que o sentido é o mesmo, uma vez que, como dissemos, a caridade é
o amor praticado, disse Paulo 1 Coríntios 13:
Ainda que eu falasse as
línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa
ou como o sino que tine.
E ainda que tivesse o dom de
profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse
toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada
seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna
para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado,
e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
O amor é sofredor, é benigno;
o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência,
não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça, mas
folga com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo
espera, tudo suporta.
O amor nunca falha; mas
havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência,
desaparecerá;
Porque, em parte, conhecemos,
e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é
perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava
como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a
ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho
em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então
conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé,
a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.
Que possamos ser parte dessa grande Igreja, que
transcende a Terra e o Céu, fiéis do mestre Jesus, com nossas ações baseadas no
amor a todos, reconhecendo em todos, no rico e no pobre, no justo e no injusto,
no esclarecido e no ignorante, no inimigo e no amigo, nossos irmãos, todos
merecedores do nosso amor e do amor do Cristo.

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