A cada um segundo as suas obras
Para
falarmos sobre este assunto, vamos trazer o exemplo da personagem real, Célia,
do livro Cinquenta anos depois, psicografia de Chico Xavier por Emmanuel.
Trata-se de um dos cinco romances históricos de Emmanuel, os outros são: Há
dois mil anos, Paulo e Estevão, Ave Cristo! e Renúncia. Para quem se interessar,
são livros que nos tocam profundamente a alma e nos fazem refletir sobre nossas
vidas, os nossos sofrimentos e renovam as nossas esperanças alicerçadas no
Cristo.
Cinquenta
anos depois traz o exemplo de profundo sacrifício e abnegação, de um coração
amoroso e sábio que confiou em Jesus para a reparação e a esperança em dias
melhores. Esse é o exemplo de Célia que na Igreja Católica foi canonizada sob o
nome de Santa Marina.
Vou
contar brevemente a história desta missionária e mártir do Cristianismo dos
anos primeiros do Evangelho:
Célia
nasceu em uma família nobre, rica e influente em Roma, na época capital do
Império Romano do Ocidente. Contemporânea de uma maioria que acreditava nos
deuses de pedra pagãos, ela era a ovelha negra da família, porque era a única cristã.
Célia
é proibida de se relacionar com Ciro, seu amado, uma vez que era cristão e
pobre. Perde-o de uma forma trágica, condenado junto com o pai dele, Nestório,
que na outra vida havia sido Publius Lentulus, a reencarnação da época de
Cristo do espírito Emmanuel. Na época, Publius era um grande senador Romano, o
maior cargo da época atrás somente do de Imperador de Roma. Como Nestória, na
reencarnação seguinte, nasce Judeu, etnia que abominava, além de pobre e
escravo. Foram pai e filho, Nestório e Ciro, assassinados nos tribunais
injustos da época, simplesmente por acreditarem na doutrina do Cristo.
Os
sofrimentos de Célia, a abnegada cristã, não terminam aí, começam. Helvídio
Lucius, pai de Célia, por forças do cargo político que ocupava no Império
Romano se ausenta durante meses de sua casa. No seu regresso, para salvar sua
mãe de uma emboscada que teria, provavelmente, sido assassinada pelo próprio
marido em nome da honra, Célia toma nos braços o enjeitado, a criança órfã que
havia sido colocada propositalmente no quarto de sua mãe para que o marido a
surpreendesse e pensasse que o filho seria de sua esposa, fruto de um
relacionamento extraconjugal.
Célia
abraça-o como se fosse seu e é expulsa de casa pelo pai. Sem ter para onde ir,
entrega-se para a divina providência, passa apuros nas mãos de pessoas mal
intencionadas, até ser socorrida e abrigada junto com o filho adotivo por um
cristão. Seu menino, reencarnação de seu amado Ciro, morre. Antes que seu
anfitrião morresse também, ele recomenda para que Célia procure um mosteiro em
Alexandria, no Egito, onde tinha conhecidos, mas passando-se por um homem, seu
filho.
Esse
cristão morre. Célia embarca para o Egito. Muda de nome e identidade, passa a
se chamar Irmão Marinho. Desperta uma paixão violenta em uma mulher que para se
vingar por não ser correspondida, diz que o filho que espera é de Irmão
Marinho. Nesse momento, Célia poderia se revelar e acabar com a calúnia, mas
para onde iria sendo mulher, em uma sociedade profundamente machista, sozinha
no mundo, rejeitada pela família? Implorou para que ficasse no mosteiro.
Permaneceu em um casebre pobre na propriedade do mosteiro, onde continuou seu
trabalho de evangelização das crianças, socorro aos necessitados de consolo, criação
dos animais, cultivo do jardim e da horta, foi obrigada a aceitar aquele filho
que não era seu, rejeitado pela mãe. Mais uma vez Célia estava com Ciro em seus
braços. A criança não sobreviveu por muito tempo e, pela terceira vez, teve que
se despedir de seu amado. Muitos que morreram no martírio eram missionários,
outros estavam resgatando o mal que fizeram em outra vida. Era o caso de Ciro,
como nos explica Emmanuel. Havia muito que resgatar, fora uma pessoa cruel e
implacável em outras existências.
Sozinha
novamente, Célia recebe a visita de seu pai sem revelar-se, que estava à
procura de consolo depois de perder a mulher e descobrir que a filha sempre
fora inocente. Seu orgulho fora transformado em um arrependimento que lhe
consumia a alma.
Ali,
Célia ainda não se revelou ao pai que buscava consolo naquelas terras
longínquas da África. Seu sacrifício continuou, era necessário assim, para que
a obra da renovação no íntimo de seu pai pudesse se suceder e gerar frutos.
Célia
lhe disse na ocasião: “Conheço Roma e o turbilhão de suas misérias angustiosas.
Ao lado das residências nobres das Carinas, dos edifícios soberbos do Palatino
e dos bairros aristocráticos, há os leprosos da Suburra, os cegos do Velabro,
os órfãos da Via Nomentana, as famílias indigentes do Trastevere, as negras
misérias do Esquilino!... Estende seu
braço às filhas dos pais atônitos, ou dos lares desprotegidos da fortuna!...
Abracemo-nos com os miseráveis, repartamos nosso pão para mitigar a fome alheia!
Trabalhemos pelo pobre e pelos desgraçados, pois a caridade material, tão fácil
de ser praticada, nos levará ao conhecimento da caridade moral que nos
transformará em verdadeiros discípulos do Cordeiro. Amemos muito!... Todos os
apóstolos do Senhor são unânimes em declarar que o bem cobre a multidão de
nossos pecados! Toda vez que nos desprendemos dos bens deste mundo, adquirimos
tesouros do Alto, inacessíveis ao egoísmo e à ambição que devoram as energias
terrestres. Converte o supérfluo de
vossas possibilidades financeiras em pão para os desgraçados. Veste os nus, protege os órfãozinhos! Todo o bem que fizermos ao desamparado constitui
moeda de luz que o Senhor da seara entesoura para nossa alma. Um dia nos
reuniremos na verdadeira pátria espiritual, onde as primaveras do amor são
infindáveis. Lá, ninguém nos perguntará pelo que fomos no mundo, mas seremos
inquiridos sobre as lágrimas que enxugamos e as boas ou más ações que
praticamos na estância terrena. (...) Há um Reino de luz onde o Senhor nos
espera os corações! Façamos por merecer-lhe as graças divinas. Os que praticam
o bem são colaboradores de Deus no infinito caminho da vida... Lá, não mais
choraremos em noite escura, como acontece na Terra. Um dia perene banhará a
fronte de todos os que amaram e sofreram nas estradas espinhosas do mundo.
Harmonias sagradas vibrarão nos Espíritos eleitos que conquistarem essas
moradas cariciosas!... Ah! Que não faremos nós para alcançar esses jardins de
delícia, onde repousaremos nas realizações divinas do Cordeiro de Deus? Mas,
para penetrar essas maravilhas, temos de início o trabalho de aperfeiçoamento
interior, iluminando a consciência com a exemplificação do divino Mestre!
O
pai de Célia, Helvídio Lucius, regressa, então, à Roma, doa 2/3 das suas posses,
passa a ajudar os necessitados, provas da sua real conversão como cristão. No
seu retorno à Alexandria para agradecer a revolução que o amor ensinado pelo
Cristo fizera em sua vida, descobre no irmão Marinho, Célia, que se revela, sua
filha tão querida. É tarde, só há tempo para um beijo de filha na fronte e nas
mãos do pai, a morte sucumbe seu corpo.
Célia
também morre de tuberculose pouco depois. E em espírito ressuscita mais viva do
que nunca no plano espiritual onde passa a trabalhar na seara do mestre em
escalas muito superiores.
Célia
é um dos maiores exemplos de sacrifício que temos notícia, era uma alma já
bastante evoluída e que estava como missionária para ajudar a evoluir também, a
plantar nos corações a semente de amor, não só de todos aqueles que a
procuravam, senão dos seus laços queridos de afeto.
Célia
é um exemplo da seguinte passagem, que se repete em tantos livros bíblicos do
novo e antigo testamento: “a cada um segundo as suas obras”. Ela é a
personificação da semeadura e a colheita no bem e do bem. É o exemplo de que a
salvação, a salvação do sofrimento, das dores, do mal, não se opera fora da
caridade.
No
capítulo XV do Evangelho Segundo o Espiritismo “Fora da caridade não há salvação”,
primeiro subtítulo, ítem 3, explicam os espíritos superiores: “Toda a moral de
Jesus se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes
contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os ensinamentos, ele mostra essas
virtudes como sendo o caminho da felicidade eterna. Bem-aventurados, diz ele,
os pobres de espírito, isto é, os humildes, porque é deles o reino dos céus.
Bem-aventurados os que têm coração puro. Bem-aventurados os que são dóceis e
pacíficos. Bem aventurados os que são misericordiosos. Amem a seu próximo como a vocês
mesmos. Façam aos outros o que querem que lhes façam. Amem seus inimigos. Perdoem as ofensas, para vocês serem perdoados. Façam o bem sem ostentação. Julguem-se antes de julgar os outros.
Humildade e caridade, eis o que ele não cessa de recomendar, e cujo exemplo ele
próprio dá. Orgulho e egoísmo, eis o que ele não cessa de combater. Mas Jesus
faz mais que recomendar a caridade; ele a coloca, nitidamente e em termos
explícitos, como a condição absoluta da felicidade futura. (...) Jesus não faz
da caridade apenas uma das condições da salvação, mas a única condição. A
caridade é o amor em ação, ela contém implicitamente todas as outras: a
humildade, a doçura, a benevolência, a indulgência, a justiça”.
Não
esperemos recompensas na Terra. A organização na Terra e as leis mundanas são
feitas pelos homens. E os homens são injustos. O merecimento de tudo o que fazemos
tem uma recompensa espiritual e não de ordem material. Há muitos que ganham
muito dinheiro e pensam que tem mais mérito do que os que ganham pouco. Há
tantos que trabalham muito e ganham pouco. Há tantos que trabalham pouco e
ganham em cima dos que trabalham muito. O dinheiro é reconhecimento entre
homens e encontra caminho de acordo com a lógica dos homens, muitas vezes
injusta, isso nada tem a ver com Deus. Mas a qualidade de nosso trabalho,
remunerado ou não, e de nossos representantes, a abnegação por realiza-lo da
melhor forma possível e a aplicação do nosso dinheiro deve ter como objetivo
sempre a própria simplicidade e a própria subsistência, além de igualmente ajudar
o próximo naquilo que ele necessita, isso sim diz respeito a Deus, aí sim está
a nossa obra, nisso há lógica divina e o reconhecimento virá espiritualmente de
acordo com a Justiça divina, porque para Deus, todos os homens são iguais.
A
caridade é “o amar ao próximo como a ti mesmo”. [...] “Caridade e humildade,
este é, portanto, o único caminho da salvação. Egoísmo e orgulho, este é o da
perdição. Não se pode amar verdadeiramente a Deus se não se ama a seu próximo.
Quem é meu próximo? Todos, indistintamente. Seres humanos, animais, a natureza
como um todo. Amar é respeitar, é tolerar, é zelar, é estender a mão. “[...] a
caridade está ao alcance de todos, do ignorante e do sábio, do rico e do pobre,
e é independente de qualquer crença particular”. “[...] Submetam todas as suas
ações ao controle da caridade, e suas
consciências responder-lhes-á. Ela não apenas evitará que façam o mal, mas lhes fará praticar o bem: pois não basta uma virtude negativa, é
preciso uma virtude ativa. Para fazer o bem, sempre é preciso a ação da
vontade. Para não fazer o mal, muitas vezes basta a inércia e a indiferença.
“Mas
alguém dirá: Você tem fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras e eu
te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (1 Pedro 1:17). A fé só é
verdadeira por meio das obras. A mudança do mundo começa em cada um de nós. Sejamos
caridosos. Sejamos o exemplo de fé. Sejamos o sal da terra. Assim seja!

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